MATO GROSSO: BOAS PRÁTICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR QUILOMBOLA

MATO GROSSO: BOAS PRÁTICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR QUILOMBOLA
Foto: Raphael Rabelo

Sou Oildo Ferreira da Silva, filho, neto, bisneto e tataraneto de quilombolas, nasci e cresci na cidade pacata de Nossa Senhora do Livramento, estado do Mato Grosso. Meus pais são minhas inspirações, assim como minha vó materna, Mãe Rosa, e minhas tias e tios, aos quais devo toda minha obediência, pois com essas pessoas aprendi o ofício da vida que é trabalhar na roça para garantir a nossa sobrevivência. 

Desde muito cedo, quando não estava na escola, eu e meus irmãos acompanhamos meus pais e avós nos trabalhos das roças, com isso fomos aprendendo os modos de como fazer e a importância das práticas dos saberes quilombolas. A roça de toco foi um fator predominante na luta em defesa de nossas terras. Na época, o fazendeiro cortava a nossa produção e nós sempre persistimos, mesmo diante de tantas dificuldades enfrentadas, sempre plantamos o dobro, como meio de intensificar a nossa permanência na propriedade, a qual os nossos ancestrais ali habitavam.

A agricultura familiar quilombola, embora seja árdua, é especifica para nós, pois, trabalhamos nas roças de toco, de onde advém a nossa sobrevivência e, principalmente, por entender, o valor que as roças de toco tem aqui no quilombo, tendo em vista que a produção de subsistência de modo geral, para o meu povo, foi o meio de resistência para continuarmos dentro de nossas propriedades, mesmo diante das investidas de maneira negativa pelos fazendeiros, querendo usurpar das áreas quilombolas que não lhes pertenciam. 

A roça de toco é aquela onde o trabalho é feito braçalmente, usando várias pessoas no processo. O primeiro momento é escolher uma área que já havia sido cultivada, e as famílias deixaram virar capoeira, conhecido como área de descanso. Assim, após 05 (cinco) anos, retornam a cultivar nessa área. Com a escolha do local, as pessoas se reúnem em muxirum, para fazer a derrubada das árvores que se encontram no determinado local, para isso utilizam de foice, machado e até mesmo motosserra. Depois da derrubada, deixa alguns dias as árvores ficarem secas, daí em coletividade, fazem os aceiros entorno do local que será a roça, dessa maneira, evitando que quando a roça for queimada, não ultrapasse em outras áreas. Após queimar o roçado, o mesmo fica cheio de toco, aí, mais uma vez, o muxirum é importante, porque reúne as pessoas para fazerem a limpeza, retirando alguns galhos do meio do roçado, porém, os tocos permanecem dentro das roças, a qual origina-se a roça de toco, aquela que é desbravada pelos próprios braços dos quilombolas – feita de maneira controlada, sem danificar a natureza. Inclusive as cinzas, assim como os restos que ficam nos roçados, servem de adubo para fertilizar o solo. Com todo o processo feito no roçado, já se pode semear as sementes.

A minha experiência, bem como da minha família, inicia com o trabalho nas roças de toco, de onde advém toda nossa produção para suprir as nossas necessidades – e o excedente nós vendemos. Aqui na roça, sempre trazemos conosco ensinamentos dos nossos ancestrais, em que a fase da lua é predominante para conseguirmos semear as sementes, colher a produção e principalmente preparar o solo. Apesar de que, atualmente, as mudanças climáticas têm interferido muito nos modos de produção, pois o aumento do efeito estufa e a falta de chuva têm sido fatores predominantes na interferência de produção.  

O preparo da roçada inicia sempre no mês de maio estendendo até o mês de setembro, onde as várias famílias se reúnem em forma de muxirum (trabalho coletivo), uma ajudando a outra, possibilitando que suas roças sejam limpas e preparadas, bem como semeadas. 

Aqui na comunidade, trabalhamos a agroecologia, inclusive as nossas sementes são crioulas, pois somos guardiões de sementes através dos ensinamentos dos nossos ancestrais – onde guardamos o arroz em tuia e o milho no paiol, e as demais sementes misturamos com cinzas para não caronchar.  Dessa maneira, temos sementes que cultivamos de um ano para outro.  Aqui, não compramos sementes híbridas, porque entendemos que os conhecimentos dos nossos ancestrais são importantes para os mantermos vivos, por isso perpassamos os saberes de geração em geração. 

Ressalto que na comunidade mutuca temos o famoso milho crioulo caiano, que ganhou uma visibilidade muito grande, pois está espalhado no estado de Mato Grosso e fora do estado – ele é conhecido principalmente pelas espigas que são graúdas e resistentes.

Os nossos conhecimentos também estão ligadas às ervas medicinais, onde aprendi com meus pais a importância e o poder das ervas, inclusive utilizamos nas nossas roças para combater pragas, como o uso do angico, para pulverizar no feijão, e dentre outras inúmeras situações que podemos usar, seja na questão medicinal, alimentação e outras. Temos como exemplo: quando quebramos um braço, usamos melado de aroeira para cicatrizar a quebradura. Esses têm sido nossos conhecimentos.

Ano passado, tivemos momentos críticos em relação à queimada no pantanal, que prejudicou muitas famílias, pois tiveram suas roças queimadas, sem falar na questão climática que interferiu negativamente na produção e impossibilitou às famílias de conseguirem o seu próprio alimento, passando por dificuldades. No lugar da chuva, nós tínhamos chuvas de fumaças, o céu encoberto por fumaça, foi um momento muito crítico, pois nunca vivi uma situação como essa. Mas enfim a chuva chegou, embora a cada ano ela esteja diminuindo e ficando cada vez mais escassa. 

Além de produzirmos o alimento, ainda temos os animais que perderam o seu habitat e acabam vindo para as nossas roças e comendo a nossa produção. Neste sentido, a comunidade Mutuca, juntamente com a Fase, candidatou junto à FAO, o Muxirum quilombola como um sistema das práticas tradicionais, por entender, que estes conhecimentos são riquíssimos e importantes para a população quilombola, pois não destruímos as nossas áreas, apenas usamos aquilo que é essencial para nossa produção de alimentos e processos de rotatividade, no qual deixamos a área descansar por uns cinco anos e depois retornamos na área que já havia sido cultivada.

Enfim, as boas práticas de produção perpassam principalmente pela valorização dos modos e saberes tradicionais quilombolas. Produzimos alimentos saudáveis para saciar a fome e manter os nossos conhecimentos ancestrais presentes.

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Oildo Ferreira
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Oildo é quilombola da Comunidade Ribeirão do Mutuca (MT), onde ajuda com resgate da cultura tradicional Quilombola.

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