{"id":5596,"date":"2021-04-19T16:02:52","date_gmt":"2021-04-19T19:02:52","guid":{"rendered":"http:\/\/dupladinamica.com.br\/?p=5596"},"modified":"2022-08-03T14:27:11","modified_gmt":"2022-08-03T17:27:11","slug":"mato-grosso-boas-praticas-da-agricultura-familiar-quilombola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ecam.org.br\/en\/blog\/mato-grosso-boas-praticas-da-agricultura-familiar-quilombola\/","title":{"rendered":"MATO GROSSO: BOAS PR\u00c1TICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR QUILOMBOLA"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em><strong>Foto: Raphael Rabelo<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sou Oildo Ferreira da Silva, filho, neto, bisneto e tataraneto de quilombolas, nasci e cresci na cidade pacata de Nossa Senhora do Livramento, estado do Mato Grosso. Meus pais s\u00e3o minhas inspira\u00e7\u00f5es, assim como minha v\u00f3 materna, M\u00e3e Rosa, e minhas tias e tios, aos quais devo toda minha obedi\u00eancia, pois com essas pessoas aprendi o of\u00edcio da vida que \u00e9 trabalhar na ro\u00e7a para garantir a nossa sobreviv\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde muito cedo, quando n\u00e3o estava na escola, eu e meus irm\u00e3os acompanhamos meus pais e av\u00f3s nos trabalhos das ro\u00e7as, com isso fomos aprendendo os modos de como fazer e a import\u00e2ncia das pr\u00e1ticas dos saberes quilombolas. A ro\u00e7a de toco foi um fator predominante na luta em defesa de nossas terras. Na \u00e9poca, o fazendeiro cortava a nossa produ\u00e7\u00e3o e n\u00f3s sempre persistimos, mesmo diante de tantas dificuldades enfrentadas, sempre plantamos o dobro, como meio de intensificar a nossa perman\u00eancia na propriedade, onde os nossos ancestrais ali habitavam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A agricultura familiar quilombola, embora seja \u00e1rdua, \u00e9 especifica para n\u00f3s, pois trabalhamos nas ro\u00e7as de toco, de onde adv\u00e9m a nossa sobreviv\u00eancia, e, por isso, entendemos o valor que as ro\u00e7as de toco tem aqui no quilombo, tendo em vista que a produ\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia de modo geral, para o meu povo, foi o meio de resist\u00eancia para continuarmos dentro de nossas propriedades, mesmo diante das investidas de maneira negativa pelos fazendeiros, querendo usurpar das \u00e1reas quilombolas que n\u00e3o lhes pertenciam.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ro\u00e7a de toco \u00e9 aquela onde o trabalho \u00e9 feito bra\u00e7almente, usando v\u00e1rias pessoas no processo. O primeiro momento \u00e9 escolher uma \u00e1rea que j\u00e1 havia sido cultivada, e as fam\u00edlias deixaram virar capoeira, conhecido como \u00e1rea de descanso. Assim, ap\u00f3s 05 anos, retornam a cultivar nessa \u00e1rea. Com a escolha do local, as pessoas se re\u00fanem em muxirum, para fazer a derrubada das \u00e1rvores que se encontram no determinado local, para isso utilizam de foice, machado e at\u00e9 mesmo motosserra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Depois da derrubada, deixa alguns dias as \u00e1rvores ficarem secas, da\u00ed em coletividade, fazem os aceiros em torno do local que ser\u00e1 a ro\u00e7a, evitando que quando a ro\u00e7a for queimada, n\u00e3o ultrapasse em outras \u00e1reas. Ap\u00f3s queimar o ro\u00e7ado, o mesmo fica cheio de toco, a\u00ed, mais uma vez, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">muxirum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 importante, porque re\u00fane as pessoas para fazerem a limpeza, retirando alguns galhos do meio do ro\u00e7ado. Por\u00e9m, os tocos permanecem dentro das ro\u00e7as, a qual origina-se a ro\u00e7a de toco, aquela que \u00e9 desbravada pelos pr\u00f3prios bra\u00e7os dos quilombolas \u2013 feita de maneira controlada, sem danificar a natureza. Inclusive as cinzas, assim como os restos que ficam nos ro\u00e7ados, servem de adubo para fertilizar o solo. Com todo o processo feito no ro\u00e7ado, j\u00e1 se pode semear as sementes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A minha experi\u00eancia, bem como da minha fam\u00edlia, inicia com o trabalho nas ro\u00e7as de toco, de onde adv\u00e9m toda nossa produ\u00e7\u00e3o para suprir as nossas necessidades \u2013 e o excedente n\u00f3s vendemos. Aqui na ro\u00e7a, sempre trazemos conosco ensinamentos dos nossos ancestrais, em que a fase da lua \u00e9 predominante para conseguirmos semear as sementes, colher a produ\u00e7\u00e3o e principalmente preparar o solo. Apesar de que, atualmente, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam interferido muito nos modos de produ\u00e7\u00e3o, pois o aumento do efeito estufa e a falta de chuva t\u00eam sido fatores predominantes na interfer\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O preparo da ro\u00e7ada inicia sempre no m\u00eas de maio estendendo at\u00e9 o m\u00eas de setembro, no qual v\u00e1rias fam\u00edlias se re\u00fanem em forma de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">muxirum <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(trabalho coletivo), uma ajudando a outra, possibilitando que suas ro\u00e7as sejam limpas e preparadas, bem como semeadas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui na comunidade, trabalhamos a agroecologia, inclusive as nossas sementes s\u00e3o crioulas, pois somos guardi\u00f5es de sementes atrav\u00e9s dos ensinamentos dos nossos ancestrais \u2013 onde guardamos o arroz em tuia, o milho no paiol e as demais sementes misturamos com cinzas para n\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">carunchar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0 Dessa maneira, temos sementes que cultivamos de um ano para outro.\u00a0 Aqui, n\u00e3o compramos sementes h\u00edbridas, porque entendemos que os conhecimentos dos nossos ancestrais s\u00e3o importantes para os mantermos vivos, perpassando os saberes de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ressalto que, na comunidade Mutuca, temos o famoso milho crioulo caiano, que ganhou uma visibilidade muito grande, pois est\u00e1 espalhado no estado de Mato Grosso e fora do estado \u2013 ele \u00e9 conhecido principalmente pelas espigas que s\u00e3o gra\u00fadas e resistentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os nossos conhecimentos tamb\u00e9m est\u00e3o ligados \u00e0s ervas medicinais. Aprendi com meus pais a import\u00e2ncia e o poder das ervas, inclusive utilizamos nas nossas ro\u00e7as para combater pragas, como o angico, para pulverizar no feij\u00e3o, e dentre outras in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es que podemos usar, seja na quest\u00e3o medicinal, alimenta\u00e7\u00e3o e outras. Um exemplo \u00e9 quando quebramos um bra\u00e7o, usamos melado de aroeira para cicatrizar a quebradura. Esses t\u00eam sido nossos conhecimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ano passado, tivemos momentos cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 queimada no Pantanal, que prejudicou muitas fam\u00edlias, pois tiveram suas ro\u00e7as queimadas. Sem falar na quest\u00e3o clim\u00e1tica, que interferiu negativamente na produ\u00e7\u00e3o e impossibilitou \u00e0s fam\u00edlias de conseguirem o seu pr\u00f3prio alimento, passando por dificuldades. No lugar da chuva, n\u00f3s t\u00ednhamos chuvas de fuma\u00e7a, o c\u00e9u coberto de fuma\u00e7a. Foi um momento muito cr\u00edtico, pois nunca vivi uma situa\u00e7\u00e3o como essa. Mas enfim a chuva chegou, embora a cada ano ela esteja diminuindo e ficando cada vez mais escassa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de produzirmos o alimento, ainda temos os animais que perderam o seu habitat e acabam vindo para as nossas ro\u00e7as e comendo a nossa produ\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a comunidade Mutuca e a Fase, candidataram junto \u00e0 FAO, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Muxirum <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">quilombola como um sistema das pr\u00e1ticas tradicionais, por entender que esses conhecimentos s\u00e3o riqu\u00edssimos e importantes para a popula\u00e7\u00e3o quilombola, pois n\u00e3o destru\u00edmos as nossas \u00e1reas, apenas usamos aquilo que \u00e9 essencial para nossa produ\u00e7\u00e3o de alimentos e processos de rotatividade, nos quais deixamos a \u00e1rea descansar por uns cinco anos e depois retornamos para a \u00e1rea que j\u00e1 havia sido cultivada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enfim, as boas pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o perpassam, principalmente, pela valoriza\u00e7\u00e3o dos modos e saberes tradicionais quilombolas. Produzimos alimentos saud\u00e1veis para saciar a fome e manter os nossos conhecimentos ancestrais presentes.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Raphael Rabelo Sou Oildo Ferreira da Silva, filho, neto, bisneto e tataraneto de quilombolas, nasci e cresci na cidade pacata de Nossa Senhora do Livramento, estado do Mato Grosso. 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