{"id":5603,"date":"2021-04-19T16:34:14","date_gmt":"2021-04-19T19:34:14","guid":{"rendered":"http:\/\/dupladinamica.com.br\/?p=5603"},"modified":"2022-08-03T11:29:15","modified_gmt":"2022-08-03T14:29:15","slug":"minas-gerais-boas-praticas-da-agricultura-familiar-quilombola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ecam.org.br\/en\/blog\/minas-gerais-boas-praticas-da-agricultura-familiar-quilombola\/","title":{"rendered":"MINAS GERAIS: BOAS PR\u00c1TICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR QUILOMBOLA"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em><strong>Foto: Alcione Aparecida Mendes<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Relato sobre as comunidades quilombola de Santa Cruz de Ouro Verde de Minas, Comunidade Quilombola de Tr\u00eas Barras, Buraco, Cubas e as demais localizadas pelas redondezas dessa regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 alguns anos, muitos quilombolas decidiram deixar de plantar, e por algumas influ\u00eancias, resolveram criar gados em espa\u00e7os min\u00fasculos de terra. As fam\u00edlias vivem em pequenas propriedades para um n\u00famero grande de pessoas, onde n\u00e3o h\u00e1, muitas vezes, como ter grandes planta\u00e7\u00f5es, porque sabemos que poucas comunidades quilombolas tiveram a titulariza\u00e7\u00e3o das terras. Al\u00e9m disso, muitos deixam de plantar, para a criar gado, e acreditando que v\u00e3o ter uma gera\u00e7\u00e3o de renda maior, provocam desmatamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com essa nova realidade, tivemos impactos bem vis\u00edveis e devastadores, como muita eros\u00e3o, fazendo com que as estradas, muitas vezes, ficassem sem condi\u00e7\u00f5es de serem utilizadas. 2015 foi o ano que mais evidenciou esse impacto, com ocorr\u00eancia de muita seca, pois muitas nascentes haviam secado por causa do desmatamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando as comunidades, atrav\u00e9s do Vandeli, iniciam o processo de identifica\u00e7\u00e3o e de certifica\u00e7\u00e3o das comunidades quilombolas, d\u00e1-se um passo ao novo rumo, buscando assim caminhos e alternativas para a sustentabilidade sem agredir o meio ambiente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Infelizmente, a sociedade capitalista implantou que o bom eram as comidas enlatadas, que as verduras e frutas melhores eram aquelas com tamanhos e cores mais exuberantes. Isso acaba desmotivando muitos agricultores a plantarem e desvalorizam as pequenas produ\u00e7\u00f5es sem agrot\u00f3xicos, quando levada \u00e0s feiras para vender.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois das certifica\u00e7\u00f5es das comunidades quilombolas, houve mais trabalho coletivo, palestras, mutir\u00e3o, cursos, feiras, como a do canjer\u00ea, realizada pela CONAQ e parceiros, entre outras feiras e iniciativas que fizeram toda diferen\u00e7a ao longo de todo esse tempo. O acesso de muitos jovens nas Universidades Federais ajudou muito a mudar a maneira de agir e pensar, porque por mais mec\u00e2nica que sejam essas universidades, l\u00e1 conseguimos ter dimens\u00e3o do tesouro que temos e de como t\u00e3o mal utilizamos essa potencialidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Percebe-se que h\u00e1 uns 5 anos, mais ou menos, o olhar do povo quilombola mudou e com isso nosso meio ambiente tamb\u00e9m. Por mais que muitos ainda tenham algumas vacas, as planta\u00e7\u00f5es e hortas ganharam mais espa\u00e7o. Costumo dizer que, no quilombo Santa Cruz, 2020 foi o ano que mais plantaram e produziram. Acredito que seja pelo efeito da pandemia, por ficarem mais em casa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um exemplo disso \u00e9 meu pai, que trabalha em S\u00e3o Paulo. Eu n\u00e3o me lembro quando foi que ele ficou tanto tempo em casa, e nessa pandemia ele ficou uns 6 meses. A fam\u00edlia plantou muito, assim colhemos feij\u00e3o, milho e amendoim. Fazia tempo que n\u00e3o via tanta fartura, mas o principal de tudo isso \u00e9 ter iniciativas, organiza\u00e7\u00f5es, projetos e entidades que ajudam no escoamento desses produtos. E hoje, as eros\u00f5es das terras est\u00e3o bem menores, consequentemente levando menos terras para as estradas e nossas matas aumentaram muito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com os cursos, foi muito trabalhada a t\u00e9cnica de sistema agroflorestal (SAF). Muitos utilizam a t\u00e9cnicas da biodiversidade nas hortas, adubagem org\u00e2nicas, utiliza\u00e7\u00f5es inteligentes de utilizar algumas plantas com inseticidas naturais, preserva\u00e7\u00e3o e reflorestamento das nascentes, entre outras t\u00e9cnicas que v\u00eam ajudando tanto nas produ\u00e7\u00f5es, como na conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As associa\u00e7\u00f5es e cooperativas s\u00e3o as maiores parceiras desses pequenos agricultores, pois atrav\u00e9s delas \u00e9 poss\u00edvel escoar os produtos. Por isso, \u00e9 preciso dar valor \u00e0s associa\u00e7\u00f5es e ajudar os quilombos que n\u00e3o est\u00e3o em dia com as documenta\u00e7\u00f5es, pois s\u00f3 conseguir\u00e3o avan\u00e7ar com as associa\u00e7\u00f5es em dias. Entidades e organiza\u00e7\u00f5es que possam contribuir \u00e9 de suma import\u00e2ncia, pois nesses Quilombo h\u00e1 muitos produtos, agroecol\u00f3gicos e de alta qualidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acredito que precisamos e tamb\u00e9m podemos fazer mais, n\u00f3s negros e quilombolas somos muitos, devemos valorizar os nossos trabalhos, nossos produtos, nosso povo e o sofrimento do nosso povo, mesmo sendo as vezes pr\u00e1ticas que muitos consideram pouco ou in\u00fatil faremos pouco a pouco a diferen\u00e7a. Um exemplo \u00e9 por que n\u00e3o come\u00e7armos a valorizar o produto do nosso quilombo ou dos quilombos vizinhos, ao inv\u00e9s de comprar de outras pessoas? Essa atitude far\u00e1 muita diferen\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os casos de eros\u00f5es eram uma realidade frequentemente vista em v\u00e1rios quilombos de MG. H\u00e1 uns 7 anos, v\u00edamos que quando come\u00e7ava o per\u00edodo das chuvas, os quilombos ficavam isolados, estradas esburacadas e tudo mais. Mas de certo tempo para c\u00e1, essa realidade foi mudando para melhor, isso porque os agricultores quilombolas come\u00e7aram a perceber que o que causavam isso eram suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es indevidas com a m\u00e3e terra. E, a partir desse momento, come\u00e7amos a mudar as nossas a\u00e7\u00f5es, as eros\u00f5es foram acabando quando come\u00e7amos a fazer barraginhas, planta\u00e7\u00f5es em n\u00edveis e reflorestamento em \u00e1reas degradadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra coisa que \u00e9 muito importante destacar s\u00e3o os interc\u00e2mbios, atrav\u00e9s deles podemos conhecer experi\u00eancias que d\u00e3o certo em outras comunidades e assim implantar nas nossas. Atrav\u00e9s dos interc\u00e2mbios, os agricultores ficam mais animados em conhecer e trocar experi\u00eancias. Lembro que quando os quilombolas da minha comunidade de Tr\u00eas Barras e Buraco fizeram um interc\u00e2mbio no Quilombo Santa Cruz, em Ouro Verde de Minas, eles voltaram muito animados e muito felizes por terem tido a oportunidade de conhecer o territ\u00f3rio e as planta\u00e7\u00f5es dos irm\u00e3os quilombolas, mesmo sendo muito distante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Boa parte dos quilombos sabem e desempenham muitas boas pr\u00e1ticas da agricultura familiar quilombola, que apoiam na mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Isso porque como foi ressaltado acima, muitos jovens quilombolas, que antes achavam imposs\u00edvel ingressar em uma universidade federal p\u00fablica, tiveram essa oportunidade. Isso foi muito bom porque somos filhos de agricultores e, com essa forma\u00e7\u00e3o, podemos ajudar ainda mais a nossa fam\u00edlia e nossa comunidade. Mesmo diante de tudo isso, n\u00e3o podemos esquecer que infelizmente essa n\u00e3o \u00e9 a realidade de todos os quilombos. Existem muitas comunidades quilombolas que ainda precisam muito de ajuda em assist\u00eancia t\u00e9cnica rural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E por mais que as comunidades utilizem essa pr\u00e1tica da agricultura, que n\u00e3o prejudica a nossa m\u00e3e terra, ainda vejo a necessidade de iniciativas de entidades que atuam com a assist\u00eancia t\u00e9cnica para com essas comunidades. Infelizmente, algumas entidades incentivam pr\u00e1ticas que n\u00e3o ajudam em nada a m\u00e3e natureza. Ent\u00e3o, vejo que ainda s\u00e3o necess\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es com agricultores sobre agroecologia e outras boas pr\u00e1ticas que n\u00e3o prejudicam nosso meio ambiente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Complementa\u00e7\u00f5es\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre t\u00e9cnicas na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, os nossos anci\u00f5es quilombolas conhecem algumas pr\u00e1ticas muito importantes. Antigamente, quando ainda n\u00e3o existia trator para ara\u00e7\u00e3o de terra, o nosso povo usava a ara\u00e7\u00e3o de arado puxado com boi, e a capina \u00e9 atrav\u00e9s de duas capinas em que o mato seco fica por cima servindo de esterco e cobertura para a terra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O povo quilombola tem o costume de planejar e preparar o local de plantio, fazendo assim a prepara\u00e7\u00e3o do solo e tamb\u00e9m trabalhando no cons\u00f3rcio de plantas, ex: milho e feij\u00e3o, intercalados. Isso faz com que se aproveite melhor a terra. Nosso povo tamb\u00e9m tem a pr\u00e1tica de dar o descanso para a terra, isto \u00e9, plantar durante uns 3 anos e depois passar o plantio para outro lugar, dando \u00e0 terra anterior um descanso para que ela se regenere e recomponha-se de nutrientes e vegeta\u00e7\u00e3o nativa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nosso povo quilombola n\u00e3o utiliza agrot\u00f3xicos para controle de pragas e nem de vegeta\u00e7\u00e3o, os nutrientes que as plantas precisam s\u00e3o adquiridos atrav\u00e9s das cinzas da queima controlada, das folhagens secas por cima do solo, das madeiras apodrecidas etc. Em toda colheita, n\u00f3s separamos uma boa parte do que colhemos para o pr\u00f3ximo plantio, como as ramas da mandioca, sementes do milho, feij\u00e3o, ab\u00f3bora, quiabo, etc. Assim, fazemos a sele\u00e7\u00e3o das melhores sementes para deixar separado para o pr\u00f3ximo plantio, isso faz com que os gr\u00e3os colhidos na pr\u00f3xima colheita sejam melhores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os nossos produtos vindos da agricultura familiar quilombola s\u00e3o diferenciados dos demais produtos, pois os impactos negativos ligados ao meio ambiente s\u00e3o os m\u00ednimos poss\u00edveis. O nosso povo quilombola tem uma liga\u00e7\u00e3o muito especial com a terra, resultado disso s\u00e3o essas t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o muito importantes, que devemos valorizar cada vez mais, pois s\u00e3o pr\u00e1ticas que n\u00e3o prejudicam o meio ambiente. Al\u00e9m disso, a forma de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, os nossos produtos banana, batata, ab\u00f3bora e toda produ\u00e7\u00e3o do nosso povo quilombola s\u00e3o sadios sem agrot\u00f3xicos. S\u00e3o produtos saud\u00e1veis prontos para ir para a mesa do consumidor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As produ\u00e7\u00f5es das comunidades quilombolas s\u00e3o de uma qualidade incr\u00edvel e muito saud\u00e1veis. Al\u00e9m das produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e das hortali\u00e7a, esses agricultores quilombolas tamb\u00e9m fazem doces, biscoitos, pimenta em conserva, entre outras variedades de produtos artesanais, que adv\u00e9m de produtos da agricultura familiar quilombola, em que o manuseio e todo o processo \u00e9 feito artesanal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 preciso de mais projetos como esse, que a ECAM e a CONAQ vem trabalhando para dar visibilidade para esses agricultores e essas produ\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso de fato conhecer o povo quilombola e seu modo de vida incr\u00edvel e saud\u00e1vel, pois muitas vezes essas produ\u00e7\u00f5es se perdem, por n\u00e3o ter pra quem vender, ou por serem vendidas a baixo custo pela pouca valoriza\u00e7\u00e3o do mercado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todos que est\u00e3o envolvidos nesse projeto precisam compreender a import\u00e2ncia dele e de fato ter um sentimento. Desejo realmente lutar para que, principalmente, esses quilombos mais esquecidos tenham dignidade e valoriza\u00e7\u00e3o pelo seu meio de ganhar a vida, dando-lhes condi\u00e7\u00f5es de viver com dignidade sem deixar seu lugar, cultura e fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ter esse panorama \u00e9 de suma import\u00e2ncia. Entendo tamb\u00e9m que catalogar os produtos \u00e9 muito importante para os quilombos e para que cidades vizinhas saibam onde encontrar produtos saud\u00e1veis e de qualidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Povo Quilombola tem v\u00e1rias t\u00e9cnicas de preparo e produ\u00e7\u00e3o dessas terras e dos alimentos produzidos por eles. Vimos alguns exemplos no in\u00edcio do texto, em que eles procuram respeitar e proteger o m\u00e1ximo as terras, buscando ver o clima, a Lua, a condi\u00e7\u00e3o da Terra, entre outras t\u00e9cnicas. Um exemplo disso \u00e9 que para afastar animais que aparecem nas lavouras, ainda hoje utilizam os espantalhos feitos de roupas velhas e plantas com cheiros fortes para afastar pragas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enfim, a sabedoria desses agricultores quilombolas \u00e9 de extrema import\u00e2ncia, vem dos seus ancestrais, sendo que at\u00e9 hoje mant\u00eam a cultura e a qualidade dos produtos do meio ambiente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Alcione Aparecida Mendes Relato sobre as comunidades quilombola de Santa Cruz de Ouro Verde de Minas, Comunidade Quilombola de Tr\u00eas Barras, Buraco, Cubas e as demais localizadas pelas redondezas dessa regi\u00e3o. H\u00e1 alguns anos, muitos quilombolas decidiram deixar de plantar, e por algumas influ\u00eancias, resolveram criar gados em espa\u00e7os min\u00fasculos de terra. 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