PARAÍBA: BOAS PRÁTICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR QUILOMBOLA

PARAÍBA: BOAS PRÁTICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR QUILOMBOLA
Foto: Josiel Alves

Convivência com o semiárido 

A Paraíba é um dos 10 (dez) estados que compõem o semiárido brasileiro, assim delimitados pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste-SUDENE, diante das suas circunstâncias climáticas e de semiaridez. Neste sentido, ao longo dos anos, a região sofre diversos efeitos climáticos, em sua grande maioria causados pelo homem, que vê um potencial na vegetação caatinga para alimentação animal e para o cultivo, muitas vezes da monocultura, causando queimadas e assim destruindo o meio ambiente. 

Um dos conceitos que vem sendo discutido por movimentos populares, organizações não governamentais e alguns setores governamentais é a convivência com o semiárido, um importante aspecto para diminuir as ações negativas contra a natureza, como desmatamento, retirada/expulsão de animais de suas áreas e interferência nos córregos de rios, nascentes. Já as ações no termo positivas podem ser enfatizadas como um ciclo cultural ancestral, algo que há séculos os seres humanos e a natureza viviam em harmonia, contudo as inovações tecnológicas, expansão de culturas únicas como milho, soja, cana-de- açúcar, foram tomando espaços cada vez maiores. 

Nossa fauna e flora estão diminuindo gradativamente, por causa dos efeitos climáticos. Nossa atmosfera a todo instante está sendo poluída pela dispersão de gases tóxicos, oriundos de indústrias e queimadas. Mas, a pequenos passos, agricultoras e agricultores vêm disseminando práticas sustentáveis, no sentido de conscientização, formação e produção, mostrando que é possível uma relação de troca com a natureza, não sendo mais a relação de apenas retirada das matérias-primas de um determinado espaço.  

 

Experiências quilombolas na Paraíba e a proteção do meio ambiente

Os quilombos da Paraíba ainda buscam preservar a fauna e flora da caatinga sem degradação, buscando a convivência com a mãe terra, seja na produção de mudas nativas do semiárido, vinculadas ao plantio em áreas degradadas, no cultivo da agricultura tradicional, ligada a consórcios ou plantando culturas agrícolas no mesmo espaço (roçado), como milho, fava, feijão, melancia, jerimum, abóbora, quiabo, macaxeira, inhame, cará e hortaliças, heranças passadas de pais para filhos e que até hoje predomina. 

O cuidado com a terra na hora de plantar é algo fundamental para o desenvolvimento das plantas. Nesse sentido, os quilombolas na Paraíba ainda têm a tradição do corte de terra no arado com tração animal, a prática de virar a terra acontece a cada 1 (ano) ou a cada 2 (dois) anos, quando vai fazer um novo plantio. Essa prática acontece desde antigamente, isso minimiza a compactação do solo e assim não perde muitos nutrientes na época das chuvas. Contudo, essa tradição tem perdido espaço para o maquinário, a exemplo dos tratores que danificam mais o solo. 

Em contrapartida, os agricultores têm plantado em consórcios e adubado o solo com estercos animais e restos da plantação antiga, com isso o solo não vai ser tão degradado. As práticas também incluem uma capinagem ralar, sem derrubar ou realizar queimadas, onde a utilização de biofertilizantes, defensivos naturais, caldas de folhas de plantas ou frutos são usados no combate de pragas naturais, e a interação das plantas que, agem como defensivos naturais, não ocasionam muitas perdas na plantação, porém ainda percebemos o uso de venenos em algumas produções, em vista desses agricultores quilombolas acharem que é uma via mais fácil de elimina as pragas das plantações sem perceber os danos na saúde e na terra. Neste sentido a formação nas associações e cooperativas tem sido o ponto principal para levar o conhecimento para os quilombolas pra terem uma melhor produção e perceber os impactos negativos dos agrotóxicos.

Além do cuidado na hora do corte da terra depois do plantio, as culturas agrícolas começam a brota, assim inicia-se a limpeza manual, com ferramentas como a enxada, que consiste na chegada de mais terra no pé da planta, para que ela se desenvolva melhor, e para a retirada de ervas daninhas que nascem no meio da plantação, assim servido de adubação verde no solo. O arado com tração animal também é usado nesse momento, com outra lâmina chamada cultivador que só retira aquelas plantinhas perto das culturas plantadas no local e vira a terra para mais próximo dos caules. A preparação de canteiros de hortaliças também passa por um processo semelhante, o manejo dos insumos para o preparo da adubação tem origem orgânica, como esterco de animais (galinhas, bodes e bovinos), capim seco, para cobertura do solo, e até solos de beiras de rios ricos em nutrientes para as hortas. 

Uma importante prática que tem se fortalecido nos quilombos da paraíba é a criação de bancos de sementes crioulas coletivas. Essa cultura de armazenamento de sementes em garrafas de plásticos foi passada pelos antepassados e possibilita que as sementes sejam protegidas de pequenos insetos ou umidades, sendo conservadas por alguns anos e pronta para o plantio. A rotação de sementes dos agricultores, ou troca de sementes, acontece a cada novo plantio e colheita, assim preservando as culturas nativas daquela região.

Algumas políticas públicas que têm dado um grande suporte para os agricultores foram a construção de cisternas de placas, com duas etapas: água 1, para o consumo de casa, e água 2, que é a cisterna de calçadão para o armazenamento de água para os animais e para o cultivo de hortaliças e frutíferas. A água é um importante elemento para a produção e a sobrevivência dos agricultores quilombolas. É possível destacar iniciativas, como o plantio em curvas de níveis, que servem para ter uma melhor infiltração da água no solo e também sua preservação.  As barragens subterrâneas, como proposta para o plantio de plantas forrageiras nativas e outras culturas agrícolas, têm a composição de uma valar (buraco), revestida com uma lona específica para o armazenamento de água, onde é coberta pelo próprio solo retirado daquela valar, o  que possibilita o agricultor cultivar em cima, pois a água das chuvas vai ficar infiltrada no subsolo. A recuperação de nascentes de rios e a plantação de mudas nativas também faz parte dos cuidados com o solo, pois é da terra que se tira os principais subsídios para a sobrevivência humana. 

 

Desafio na produção orgânica nos quilombos 

A produção orgânica é um grande desafio para os agricultores e especificamente para os quilombolas. A existência de problemas para a execução de uma produção orgânica em grande ou pequena escala se dá em diversos fatores, mas levanto um principal problema que é a falta de políticas públicas de incentivo e financiamento dessas produções, pois é necessário para preservação do meio ambiente. As políticas de produção, preservação e comercialização podem ser de grande impacto positivo para a convivência com o semiárido, pois em funcionamento e bem desenvolvidas é possível alcançar uma conscientização mais forte de preservação. Com isso, adentramos em outro fator mais interno, que é a formação, onde o reavivamento de culturas ancestrais vai brotando novamente, exemplos em pequenas produções orgânicas mostram aos agricultores quilombolas que é possível uma subsistência e geração de renda da sua propriedade. 

A caminhada é longa para termos alimentos saudáveis em nossa mesa e vida digna para nossos povos, mais movimentos populares, organizações não governamentais e outras instituições públicas e algumas privadas têm iniciado formações para os produtores começarem seus plantios. A preservação de sementes crioulas é um dos pontos principais que é debatido. Na Paraíba, alguns quilombos têm preservado suas sementes crioulas, criando bancos de sementes e iniciando suas produções orgânicas para o consumo e comercialização em feiras livres e casas de economia solidária. 

Compartilhe

Josiel Alves
Todos os posts

Graduando do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Campina Grande-Campus Sumé, jovem quilombola da Comunidade Quilombola Cacimba Nova - São João do Tigre (PB). Militante da Pastoral da Juventude Rural-PJR na Paraíba e comunicador popular. Atua há 5 anos nas causas populares do campo e das comunidades quilombolas.

Sai o desmatamento, entram os benefícios na fazenda
Equipe Ecam

Sai o desmatamento, entram os benefícios...

Projeto Pecuária Sustentável muda a forma de se planejar e executar a atividade, gerando ganhos...

Continuar lendo

Compartilhe

Practicing solidarity in essence
Equipe Ecam

Practicing solidarity in essence

How Ecam Negócios Sociais managed to mitigate the effects of the pandemic on vulnerable...

Continuar lendo

Compartilhe

Full powers for sustainable development
Equipe Ecam

Full powers for sustainable development

How building dialogue between companies and the surrounding communities can bring more prosperity to...

Continuar lendo

Compartilhe

Praticando solidariedade na essência
Equipe Ecam

Praticando solidariedade na essência

Como a Ecam Negócios Sociais conseguiu amenizar os efeitos da pandemia em comunidades vulneráveis...

Continuar lendo

Compartilhe