Plenos poderes para o desenvolvimento sustentável

Plenos poderes para o desenvolvimento sustentável

Como a construção de diálogo entre empresas e comunidades de seu entorno pode trazer mais prosperidade para os negócios e para as pessoas.

A expressão “plenos poderes” é utilizada no meio jurídico quando alguém recebe uma autorização para representar legalmente outra pessoa. Quando uma grande empresa se instala em uma determinada região por motivações econômicas, é comum se observar uma dinâmica similar a essa nas relações estabelecidas com a comunidade do entorno.

É como se o poder econômico conferisse à empresa uma autorização para tomar as decisões sobre o que é melhor para o desenvolvimento daquela região e, com isso, representar os interesses de todas as pessoas diretamente impactadas pelas suas atividades, sejam colaboradoras ou não.

Só que essa dinâmica geralmente acarreta muitos problemas, não apenas para a comunidade, que pode se sentir lesada por não se ver contemplada nas decisões, mas especialmente para a empresa, que acaba se envolvendo em litígios e sanções legais, e precisa arcar com custos para seus negócios, sua imagem e seu desenvolvimento.

“Hoje já vivemos em uma época de maior consciência das empresas sobre seu papel social. Mesmo assim, ainda há muita dificuldade da alta gestão empresarial saber como de fato colocar em prática uma ação social que vá além de pagar tributos, gerar empregos e realizar projetos unilaterais que acabam não gerando resultado efetivo”. Vasco Van Roosmalen, diretor executivo da Ecam Negócios Sociais

Imagem: banco de dados Ecam

Uma história vivida pela Ecam Negócios Sociais, que há 20 anos atua na construção de pontes entre a iniciativa privada, governo e comunidades, ilustra muito bem isso. No noroeste do Pará, as tentativas de uma mineradora de compensar o impacto de suas atividades e trazer desenvolvimento para a região esbarravam na falta de abertura ao diálogo e à escuta genuína às necessidades das pessoas, nesse caso diversas comunidades de sete territórios quilombolas.

E quando o diálogo não flui, qual a saída? Mais diálogo. Pode parecer um paradoxo, mas é justamente aqui que reside uma das competências chave da Ecam Negócios Sociais: a visão de que para que possa ocorrer um diálogo verdadeiro entre uma empresa e uma comunidade, é preciso primeiro criar as condições dentro da própria comunidade e da empresa para que um diálogo possa acontecer em pé de igualdade, com as partes consciente de seus direitos, de suas responsabilidades e de qual futuro queremos construir juntas para o território.

Para fazer um diálogo fluir, existe método e prática. Se imaginarmos que o diálogo é como uma ponte, a fundação dessa ponte está no mapeamento colaborativo dentro das comunidades.

“Ainda é comum vermos pesquisadores que vão a campo, entrevistam as pessoas, levam dados e informações importantes para suas teses e nem sempre retornam à comunidade para, ao menos, compartilhar esses resultados. Naturalmente, esse tipo de abordagem provoca a desconfiança na comunidade com qualquer ferramenta e olhar externo que coloque os números acima das pessoas.” Nana Pivetta, coordenadora da Ecam Negócios Sociais

Imagem: banco de dados Ecam

Construindo a ponte: o mapeamento colaborativo

A abordagem da Ecam Negócios Sociais já quebra com esse paradigma desde o início, pois o mapeamento não é realizado por agentes externos, e sim pela própria comunidade, que é capacitada por meio de oficinas onde aprendem ferramentas e tecnologias de coleta e análise de dados.

No noroeste do Pará, mais de 50 jovens quilombolas puderam, com esse conhecimento, capacitar outras pessoas para que pudessem ampliar a consciência sobre seus territórios e embasar um planejamento para suas vidas. Para que tudo funcionasse bem, a infraestrutura de internet foi viabilizada também com o apoio da Ecam.

Com os diagnósticos produzidos pelas comunidades, foi possível a elaboração de um planejamento estratégico com objetivos definidos por quem vive no território para os próximos 10 anos. Para viabilizar que esses sonhos pudessem sair do papel, foi estruturado um Fundo Quilombola para oferecer suporte financeiro e qualificar os quilombolas a receberem diretamente futuros investimentos.

 

Imagem: banco de dados Ecam

Pavimentando a ponte: mais autonomia para as comunidades

A partir de um mapeamento e de planos concretos elaborados pelas próprias comunidades, é possível avançar a mais uma etapa fundamental deste trabalho: fazer as pessoas caminharem com suas próprias pernas pela ponte que agora já conta com um chão pavimentado.

Por isso, são realizados diversos trabalhos que visam qualificar mais pessoas para trabalharem de forma organizada e sistematizada pelo sustento no presente e pelo cuidado com o futuro. É aí que entra o trabalho de estruturação das associações comunitárias, que são as entidades jurídicas que dão forma às ações e demandas das comunidades, além de representá-las no diálogo com o poder público e a iniciativa privada.

De apoio à estruturação administrativa e jurídica de associações de recicladores de lixo e feirantes ao desenvolvimento de programas de estágio para formar mais pessoas aptas a atuar dentro das associações, a Ecam Negócios Sociais qualificou oito diferentes entidades quilombolas que passaram a ganhar novas fontes de renda e mercados para seus produtos, além de mais voz e vez na definição de políticas públicas participativas.

Um trabalho que, associado aos dados colhidos nos diagnósticos, possibilitou a estruturação, por exemplo, do plano de vacinação da população quilombola, que sem essa autonomia, teria mais dificuldade em conseguir junto ao poder público a priorização de suas comunidades na fila de vacinação contra a Covid-19.

“Todo o trabalho que realizamos é para que, dentro de um horizonte de tempo pré-determinado, a gente possa se tornar desnecessário. Quando chegamos nesse ponto, é porque nosso trabalho foi muito bem realizado.” Vasco Van Roosmalen, fundador da Ecam Negócios Sociais

 

Ponte criada para o diálogo: onde os poderes se encontram e colaboram

De fato, após cinco anos envolvida na implementação desse amplo programa de desenvolvimento sustentável no noroeste do Pará, onde mobilizou o melhor de seus recursos pessoais, técnicos e metodológicos, a Ecam Negócios Sociais encerrou seu ciclo, deixando os sete territórios quilombolas mais capazes para dialogar com a gestão pública e privada e criar seu plano de desenvolvimento em uma relação mais consciente e construtiva com a mineradora que originalmente financiou o programa.

Com as comunidades conhecendo mais sobre seus direitos e ganhando voz, os poderes da comunidade e da empresa, em vez de se anularem, se somam, e colocam a região mais próxima de realizar seu potencial pleno de desenvolvimento com mais prosperidade para os negócios e para as pessoas.

Um conhecimento mais pleno de seu território, possibilita plenos poderes para a comunidade e também para empresas que se instalam em sua região. Esse poder construído em colaboração e respeito mútuo entre as partes envolvidas é o que a Ecam Negócios Sociais vê que pode ser levado a mais territórios para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida.

 

Nota: Nesta experiência, a Ecam pôde contar com a parceria das populações locais e de várias instituições do setor público e privado, dentre elas a Mineração Rio do Norte (MRN), Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e Agenda Pública..

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